'A era da Doutrina Monroe acabou': há 13 anos, governo Obama decretou o fim da política que Trump agora quer resgatar
12/08/2026
(Foto: Reprodução) EUA publicam vídeo sobre doutrina e falam em domínio sobre as Américas
O ano era 2013, e o então secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, decretava: "A era da Doutrina Monroe acabou". Kerry, que falava em nome do então presidente Barack Obama, se referia à doutrina criada há 200 anos sob a qual os EUA tratavam a América Latina como uma espécie de "quintal" de influência exclusivo.
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Treze anos depois, os Estados Unidos, agora sob o governo de Donald Trump, reivindicaram o resgate da mesma doutrina.
➡️ O Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou na terça-feira (11) um vídeo em que afirma que o domínio do país em toda a América "nunca mais será questionado". A publicação apresenta um histórico da Doutrina Monroe e elogia a política:
"A Doutrina Monroe moldou a política externa dos EUA por mais de dois séculos. O domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado", diz a legenda da publicação.
O vídeo divulgado pelo governo norte-americano ocorreu em um momento em que os EUA têm demonstrado apoio à direita na América Latina. Trump, por exemplo, apoiou aliados de Javier Milei nas eleições legislativas da Argentina de 2025, além de Abelardo de la Espriella, eleito presidente da Colômbia neste ano.
O discurso de Kerry
Quando decretou o fim da mesma doutrina, durante discurso em uma cúpula da Organização dos Estados Americanos (OEA), John Kerry apontou metas opostas. Disse que, passadas as guerras mundiais e o período da Guerra Fria — em que Washington disputou com a então existente União Soviética zonas de influência —, os EUA começariam a mudar a relação com a América Latina.
"O relacionamento que buscamos, e que trabalhamos duro para forjar, (...) é sobre todos os nossos países (das Américas) olhando uns aos outros como iguais, cooperando com questões de segurança e aderindo, não a doutrinas, mas a decisões que nós fazemos como parceiros", discursou Kerry.
Veja, abaixo, detalhes sobre o discurso do ex-secretário de Estado na cúpula da OEA em 2013:
Secretário de Estado americano anuncia o fim da Doutrina Monroe
ENTENDA: O que é Doutrina Monroe, citada pelos EUA ao falar sobre o domínio das Américas
Trump resgata Doutrina Monroe
No fim de 2025, o governo de Donald Trump já havia indicado o resgate da Doutrina Monroe em um documento que dava as bases para a política externa do Departamento de Estado. A declaração fez especialistas indicarem que, ao longo de 2026, a gestão Trump deveria expandir operações na América Latina e buscar liderar um protecionismo no Ocidente para fazer frente à China e à Rússia.
Dias depois, os EUA invadiram a Venezuela e capturaram o então presidente venezuelano, Nicolás Maduro.
Novo vídeo
No vídeo de terça-feira, o Departamento de Estado citou a operação que capturou Maduro, em 3 de janeiro, como o exemplo mais recente da aplicação da doutrina norte-americana no continente.
Segundo a gravação, a ação dos EUA enviou um "forte sinal a todo o hemisfério". Maduro foi levado para o território norte-americano para responder a acusações de narcoterrorismo e está preso em uma penitenciária de Nova York.
A publicação apresenta a captura de Maduro como parte de uma política aplicada desde o século 19 e criada pelo então presidente James Monroe.
🔎 A Doutrina Monroe previa "a América para os americanos", segundo a qual qualquer tentativa de "recolonização" por outros países seria vista como ameaça direta aos EUA. Mas acabou se tornando um pretexto para que os EUA fizessem da América Latina seu "quintal" de influência.
Segundo o Departamento de Estado, o que começou como um alerta à Europa evoluiu para uma política de domínio regional. O vídeo afirma ainda que a doutrina continua sendo atualmente a "pedra angular" da estratégia dos EUA no hemisfério.
Ditaduras ignoradas
Ao contar a história da doutrina, o Departamento de Estado passa por diferentes episódios da atuação americana na América Latina.
Um dos casos citados é o do Panamá. O vídeo afirma que, em 1903, os Estados Unidos apoiaram a independência panamenha da Colômbia e conseguiram um acordo para construir, operar e defender o Canal do Panamá.
O vídeo também cita a crise dos mísseis de Cuba, em 1962. Segundo a publicação, o então presidente John F. Kennedy recorreu à Doutrina Monroe após a descoberta de mísseis soviéticos na ilha.
O histórico apresentado pelo Departamento de Estado, no entanto, deixa de fora intervenções americanas na América Latina que contribuíram para levar diversos países da região a regimes ditatoriais no século 20.
Estratégia de política externa
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante um evento para assinar uma ordem executiva sobre flexibilidade na vacinação em 10 de agosto de 2026
Kylie Cooper/Reuters
Em dezembro de 2025, a Casa Branca divulgou um documento para traçar a nova Estratégia de Política Externa. Nele, o governo Trump indicou que passaria a focar mais na América Latina.
Segundo a estratégia, os Estados Unidos vão passar a reajustar a presença militar em outros países para enfrentar "ameaças urgentes" no Hemisfério Ocidental. Os objetivos estariam ligados a questões de segurança nacional.
O documento afirma que o realinhamento militar na América Latina se baseará em três elementos principais:
ampliar a presença da Guarda Costeira e da Marinha para controlar rotas marítimas, combater imigração ilegal e reduzir o tráfico de drogas e de pessoas;
reforçar a proteção das fronteiras e intensificar o combate aos cartéis de drogas, incluindo o uso de força letal em alguns casos;
estabelecer ou ampliar o acesso dos EUA a locais considerados estratégicos na região.
A estratégia diz ainda que os EUA buscam "reafirmar e aplicar a Doutrina Monroe para restaurar a predominância americana no Hemisfério Ocidental', com uma "retomada poderosa" da influência sobre a região. O foco seria o combate ao avanço chinês pela região.
Montagem mostra Trump e Obama
Kylie Cooper/Reuters; Jonathan Ernst/Reuters