Cada vez mais anti-imigração, Europa vai torcer por filhos de imigrantes na Copa do Mundo
14/06/2026
(Foto: Reprodução) Cada vez mais anti-imigração, Europa vai torcer por filhos de imigrantes na Copa do Mundo
Em meio a um movimento generalizado para endurecer regras migratórias por toda a União Europeia, europeus de diversos países voltarão suas esperanças pelo título na Copa do Mundo a… filhos de imigrantes.
✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp
As seleções europeias têm registrado nos últimos anos um aumento na quantidade de descendentes de imigrantes em seus elencos. A presença desses jogadores já é consolidada entre os principais times do velho continente, e se repetiu nas convocações para esta Copa:
Na seleção da França, 20 dos 26 (77%) jogadores que disputarão o torneio são filhos de imigrantes;
Na Holanda, metade dos jogadores são descendentes diretos de estrangeiros;
Nas seleções da Alemanha e da Inglaterra, os filhos de imigrantes representam ao menos um terço dos elencos.
➡️ Essas quatro seleções estão entre as favoritas para vencer o torneio — junto com Espanha, Portugal, Argentina e Brasil—, segundo projeção feita pela Opta, especializada em estatísticas de futebol.
Os dados são de um levantamento feito pelo g1 a partir das convocações finais para a Copa do Mundo, que será disputada entre junho e julho nos EUA, no México e no Canadá (veja no infográfico abaixo).
“Essas seleções são um excelente retrato dessas sociedades europeias, que passaram a ser mais multiculturais e multirraciais [nas últimas décadas]”, afirmou ao g1 Maurício Santoro, doutor em Ciência Política e Sociologia pelo Iuperj.
França x Irlanda do Norte - Amistoso Pré-Copa do Mundo
REUTERS/Sarah Meyssonnier
A França, inclusive, é uma das seleções mais fortes do mundo nas últimas décadas e chegou a duas finais consecutivas nas duas últimas Copas, em 2018 e 2022 —quando foi campeã e vice, respectivamente.
Essas campanhas foram construídas por times de alta diversidade étnica, e desta vez não será diferente: a equipe é liderada por Kylian Mbappé e Ousmane Dembélé, ambos filhos de imigrantes e que estão entre os melhores jogadores do mundo atualmente.
Essa diversidade é resultado de um fluxo migratório mundial rumo à Europa que remonta o século XX e ao neocolonialismo — período em que os europeus fizeram a partilha da África entre si.
A Europa é atrativa pelo Estado de bem-estar social, principalmente nos países-membros da União Europeia, e passou a ser lar de imigrantes de ex-colônias africanas e refugiados de guerras na Ásia e na África (leia mais abaixo);
A crise dos refugiados, que completou 10 anos em 2026, também é um exemplo desse fluxo migratório.
Ao mesmo tempo, diversos países do bloco europeu tomaram medidas para endurecer as regras migratórias. O discurso anti-imigração é uma bandeira da extrema direita, que ganhou terreno nos últimos anos e passou a ocupar mais cadeiras nos parlamentos nacionais e a influenciar governos.
Veja na arte abaixo as proporções dos jogadores filhos de imigrantes não-europeus e as ascendências mais comuns em algumas das principais seleções europeias nesta Copa:
Infográfico mostra quantos jogadores são filhos de imigrantes nas convocações das principais seleções europeias para a Copa do Mundo de 2026.
Juan Silva/Arte g1
Veja no final da matéria um maior detalhamento sobre a ancestralidade dos jogadores dessas seleções europeias.
Imigração na Europa
O fluxo de imigração rumo à Europa começou em meados do século XX, por volta da década de 1960, conforme as colônias europeias da África e da Ásia começaram a se tornar independentes, segundo explicou ao g1 Adriano Freixo, professor de Relações Internacionais na UFF e autor de “Futebol — o outro lado do jogo”.
Buscando uma vida melhor, imigrantes rumaram ao continente europeu, em muitos casos com destino ao ex-colonizador.
O processo continuou nas décadas seguintes. Já no século XXI, a crise dos refugiados levou mais de 1,5 milhão de pessoas a entrarem na União Europeia, entre os anos de 2014 e 2016.
Em 2022, o número cresceu ainda mais: 5,3 milhões de pessoas nascidas fora da Europa ingressaram no bloco (veja abaixo) .
Infográfico mostra os sete países da União Europeia que mais receberam imigrantes não-europeus entre 2020 e 2024.
Juan Silva/Arte g1
Crescimento da extrema direita
Os altos números de imigração alimentaram o crescimento da extrema direita no continente europeu, ao lado de um contexto de crise e declínio nas condições de vida.
Segundo especialistas ouvidos pelo g1, esse grupo político costuma utilizar os imigrantes como "bode expiatório" para problemas sociais reais, como o desemprego, por exemplo.
“Quando você quer procurar um bode expiatório, alguém que você vai culpar por todos os problemas existentes na sociedade, o mais fácil é procurar aquele que é diferente. (...) A extrema direita utiliza a diferença para construir o ódio [ao imigrante], que é a base de seu discurso. Eles só conseguem crescer politicamente a partir dessa dicotomia amigo e inimigo”, explicou o professor Adriano Freixo.
Uma das consequência do crescimento da extrema direita pode ser vista no endurecimento de políticas migratórias em diversos países:
França: facilitou a expulsão de imigrantes ilegais, estabeleceu cotas para nacionalizações de descendentes e aumentou para 5 anos o prazo para estrangeiros desempregados desbloquearem benefícios de moradia.
Alemanha: aplicou medidas como facilitar e agilizar deportações, restringiu concessões de cidadania e reduziu ajudas de custo a refugiados. Além disso, suspendeu por dois anos a reunificação familiar - quando um refugiado que já esteja no país traz seus familiares.
Reino Unido: dobrou, para 10 anos, o tempo para conseguir residência permanente, retirou direitos automáticos de moradia e apoio financeiro. Além disso, estabeleceu deportações de refugiados caso o país de origem seja considerado seguro.
Holanda: fechou as fronteiras com a UE, impôs limitações ao reagrupamento familiar, revogou leis de alojamentos municipais obrigatórios e declarou uma “crise de asilo” entre 2024 e 2026 para suspender tramitação de casos em aberto.
'Internacionalização' das seleções europeias
O alto fluxo migratório tem um impacto direto no futebol europeu, com presença cada vez maior de filhos e netos de imigrantes naturalizados em suas seleções — a maior parte africana ou muçulmana.
Para o professor Maurício Santoro, os descendentes de imigrantes conseguem espaço nessas equipes porque o futebol é um dos espaços mais meritocráticos da sociedade, o que ajuda a minimizar seu viés racista.
“O futebol reflete essas tensões sociais decorrentes da imigração e com frequência as leva para um outro público, que talvez não se engajasse nesse tipo de debate. (...) Por isso, acaba virando também um elemento de disputa política, ideológica e social”, afirmou Santoro.
Segundo Santoro, casos de sucesso de descendentes de imigrantes que chegam ao mais alto nível, como os de Mbappé, Yamal e Zinedine Zidane, personificam a ascensão social possibilitada pelo esporte.
Por outro lado, muitos desses jogadores sofrem preconceito das torcidas organizadas europeias, ressalta o professor Adriano Freixo.
“Os jogadores de ascendência estrangeira tendem a ser bem [mais] politizados porque eles sentem na carne essa discriminação. E muitas vezes enfrentam o racismo dentro de campo e da própria torcida. (...) Ou seja, ao mesmo tempo que ele está ali representando a seleção, boa parte dos cidadãos daquele país não o reconhecem como um igual. É um contrassenso”, explicou Freixo.
Essa contradição cria uma lógica de "europeu quando ganha, imigrante quando perde", segundo Freixo, com torcedores jogando a culpa pela derrota sobre os jogadores filhos de imigrantes.
Mbappé cogitou se aposentar da seleção com apenas 22 anos após perder um pênalti que resultou na eliminação da França da Eurocopa de 2021 contra a Suíça. O craque disse ter sido xingado de "macaco" e alegou que não recebeu o apoio da federação francesa de futebol.
Na final dessa mesma Euro, um trio inglês de ascendência imigrante (Bukayo Saka, Marcus Rashford e Jadon Sancho) também sofreu ofensas racistas após perder pênaltis. Nesse caso, no entanto, a federação de futebol e outras autoridades inglesas repudiaram o caso e pediram punições pesadas aos criminosos.
Em reação ao racismo, alguns jogadores da seleção francesa passaram a não cantar o hino da França durante as partidas — um fenômeno que ocorre desde o fim da década de 1990. O atacante Benzema, por exemplo, foi alvo de ataques da extrema direita por tomar essa posição em jogos entre 2013 e 2018.
Espanha: a exceção, mas nem tanto
Lamine Yamal em campo antes da final da Liga das Nações contra Portugal
REUTERS/Angelika Warmuth
A Espanha está entre as favoritas para vencer a Copa do Mundo, porém sua seleção não tem uma porcentagem expressiva de estrangeiros entre os jogadores convocados. Menos de 10% são filhos de imigrantes.
Mesmo assim, a pauta da imigração não fica de fora das conversas sobre futebol no país. Isso porque o melhor jogador da seleção atualmente, Lamine Yamal, é filho de africanos: seu pai nasceu em Marrocos e sua mãe, na Guiné-Equatorial. O atacante Nico Williams, que também é uma das estrelas do elenco, tem origem ganesa.
A ascendência de Yamal fez com que ele também fosse alvo de insultos racistas — o mais recente deles ocorrido durante um amistoso da Espanha em março. A torcida presente no estádio começou a cantar “quem não pular é muçulmano”, o que gerou repúdio por parte do governo espanhol.
Yamal, hoje com 18 anos, repreendeu de forma contundente os cânticos racistas. Dias depois, ele levantou a bandeira da Palestina durante comemorações de um título de sua equipe, imagem que rodou o mundo.
A Espanha recebeu pelo menos um milhão de não-europeus por ano entre 2022 e 2024, segundo o escritório de estatísticas do bloco europeu. O governo de Pedro Sanchez, no entanto, corre na contramão do restante da UE quando o assunto é política migratória.
A Espanha aprovou em abril uma regularização extraordinária e em massa para meio milhão de imigrantes. O premiê defendeu a medida como um ato de justiça e também de necessidade, para ajudar a enfrentar a falta de mão de obra no país.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, discursa durante uma coletiva de imprensa após participar de uma cúpula especial de líderes da União Europeia
REUTERS/Yves Herman
Veja abaixo quem é filho de imigrantes nas convocações das seleções mencionadas na reportagem:
França (20/26)
Robin Risser
Mike Maginan (Milan) - pais de Haiti e Guadalupe
Brice Samba (Rennes) - nasceu na RD Congo
Lucas Digne
Lucas Hernandez
Theo Hernandez
Maxcence Lacroix
Malo Gusto - pais de Portugal e Martinique
Ibrahima Konaté - Guiana francesa
Jules Koundé - Benin
William Saliba - Egito e Camarões
Dayot Upamecano - Guiné-Bissau
N'Golo Kanté - Mali
Manu Koné - Costa do Marfim
Adrien Rabiot
Aurélien Tchouaméni - Congo e Camarões
Warren Zaïre-Emery - Martinica
Akliouche - Argélia
Cherki - Argélia
Ousmane Dembélé - Mali e Mauritânia
Bradley Barcola - Togo;
Désiré Doué - Costa do Marfim;
Kylian Mbappé - Argélia e Camarões;
Michael Olise - nasceu na Inglaterra, e pais da Nigéria;
Marcus Thuram - nasceu na Itália, e pais de Guadalupe;
Jean-Philippe Mateta - RD Congo.
Holanda (13/26)
Bart Verbruggen;
Mark Flekken;
Robin Roefs;
Nathan Aké - pais de Costa do Marfim;
Virgil van Dijk - Suriname;
Denzel Dumfries - Suriname;
Jorrel Hato - Gana;
Jan Paul van Hecke;
Micky van de Ven;
Lutsharel Geertruida - Curaçao;
Frenkie de Jong;
Ryan Gravenberch - Suriname;
Teun Koopmeiners;
Tijjani Reijnders - Indonésia;
Marten de Roon;
Guus Til;
Quinten Timber - Curaçao;
Mats Wieffer;
Brian Brobbey - Gana;
Memphis Depay - Gana;
Cody Gakpo - Togo;
Justin Kluivert;
Noa Lang - Suriname;
Donyell Malen - Suriname;
Wout Weghorst;
Crysencio Summerville.
Alemanha (11/26)
Oliver Baumann;
Alexander Nübel;
Manuel Neuer;
Waldemar Anton - nasceu no Uzbequistão;
Nathaniel Brown - pais dos EUA;
Pascal Groß;
Joshua Kimmich;
Felix Nmecha - Nigéria;
Pavlovic;
Angelo Stiller;
David Raum;
Antonio Rüdiger - Serra-leoa;
Nico Schlotterbeck;
Jonathan Tah - Costa do Marfim;
Malick Thiaw - Senegal e Finlândia;
Nadiem Amiri - Afeganistão;
Maxmilian Beier;
Leon Goretzka;
Kai Havertz;
Assan Ouédraogo - Burkina Faso;
Jamie Leweling;
Jamal Musiala - Nigéria, Inglaterra;
Leroy Sané - Senegal;
Deniz Undav - Turquia;
Florian Wirtz;
Nick Woltemade.
Inglaterra (9/26)
Dean Henderson
Jordan Pickford
James Trafford
Dan Burn
Marc Guehi - Costa do Marfim
Reece James;
Ezri Konsa - RD Congo
Tino Livramento;
Nico O’Reilly;
Jarell Quansah - Gana e Barbados;
Djed Spence - Quênia e Jamaica;
John Stones;
Elliot Anderson;
Jude Bellingham;
Eberechi Eze - Nigéria;
Jordan Henderson;
Kobbie Mainoo - Gana;
Declan Rice;
Morgan Rogers;
Anthony Gordon;
Harry Kane;
Noni Madueke - Nigéria;
Ollie Watkins;
Marcus Rashford - Santa Lúcia;
Bukayo Saka - Nigéria;
Ivan Toney.
Espanha (2/26)
Unai Simon;
David Raya;
Joan Garcia;
Pedro Porro;
Marcos Llorente;
Aymeric Laporte - nasceu na França;
Pau Cubarsi;
Marc Cucurella;
Marc Pubill;
Eric Garcia;
Alejandro Grimaldo;
Rodri Hernandez;
Martin Zubimendi;
Pedri;
Gavi;
Mikel Merino;
Fabián Ruiz;
Alex Baena;
Mikel Oyarzabal;
Dani Olmo;
Lamine Yamal - Guiné equatorial e Marrocos;
Ferran Torres;
Borja Iglesias;
Nico Williams - Gana;
Yeremy Pino;
Victor Muñoz.