Coiotes, barcos e rotas na mata por US$ 10 mil: a perigosa saga dos cubanos para chegar ao Brasil em número recorde

  • 22/06/2026
(Foto: Reprodução)
Cubanos lideram pedidos de refúgio no Brasil Era madrugada de uma quinta-feira, 11 de junho, quando os agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) se depararam com uma situação que nos últimos meses deixou de ser novidade em Roraima: um grupo de 43 pessoas arrastando malas pesadas caminhavam pelo acostamento da BR-401, em Cantá, a cerca de 10 quilômetros da capital, Boa Vista. Eram crianças, mulheres e homens que haviam entrado "escondidos" no Brasil horas antes pela fronteira com a Guiana, alguns dias após saírem de seu país-natal, Cuba. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp "São pessoas que estão chegando aqui em situação bem degradante, alguns sem se alimentar, comendo só biscoito e com doenças respiratórias e gastrointestinais", relata Isaias Magalhães, agente e chefe da comunicação da PRF em Roraima. Abandonado por uma rede clandestina de "coiotes" que o atravessaram pela fronteira, o grupo se juntou a outros 13 mil cubanos que fizeram pedidos de refúgio ao Brasil neste ano, considerando os dados até abril de 2026 do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), do Ministério da Justiça em parceria com a Universidade de Brasília (UnB). Nos registros da Polícia Federal da entrada regular de estrangeiros em postos de controle de fronteira aéreo ou terrestre, 6 mil cubanos entraram no país em 2026. O Ministério da Justiça ressalta que os pedidos de refúgio não correspondem necessariamente a novas chegadas ao país, já que parte dos solicitantes pode ter ingressado no Brasil em anos anteriores e formalizado o pedido apenas agora. Ainda assim, a diferença entre os 13 mil pedidos de refúgio e os cerca de 6 mil registros de entrada regular de cubanos sugere um aumento da migração por rotas irregulares ou não registradas nos postos migratórios oficiais, algo percebido por pesquisadores e organizações de acolhimento em Roraima. Cubanos têm sido resgatados na BR-401, em Roraima PFR Leia mais Morre Ramiro Valdés, herói revolucionário e ex-vice-presidente de Cuba, aos 94 anos Cuba aprova maior abertura da economia em quase 70 anos Os números também confirmam uma virada que começou em 2025, quando os cubanos passaram os venezuelanos e se tornaram a nacionalidade com mais pedidos de refúgio no Brasil. No ano passado, foram cerca de 42 mil pedidos cubanos, 20 mil a mais do que os venezuelanos. Como a Guiana não exige vistos a cubanos, milhares têm viajado de avião de Havana até o aeroporto de Georgetown, capital guianense, com escalas em países como a República Dominicana. De lá, seguem numa viagem que chega a 20 horas por estrada (em grande parte de terra) até Lethem, na fronteira com o Brasil. Ali, são atravessados por coiotes de maneira irregular, num barco pelo rio Tacutu. No Brasil, entram em carros superlotados que seguem em alta velocidade até a região de Boa Vista, onde pedem refúgio para permanecer no Brasil. São rotas que "expõem as pessoas a diferentes riscos de proteção, como condições inseguras de transporte, endividamento e situações de exploração", explica Thaisa Freitas, coordenadora do Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados em Roraima, que tem visto o crescimento expressivo no atendimento a cubanos. Segundo a lei brasileira, o estrangeiro que chega ao território nacional pode solicitar reconhecimento como refugiado "a qualquer autoridade migratória que se encontre na fronteira". Ou seja, em tese, os cubanos não precisariam se submeter à travessia clandestina. Mas, segundo imigrantes e fontes que conversaram com a BBC News Brasil, muitos cubanos são levados a acreditar que precisam fazer esse trajeto por meio de atravessadores irregulares, pagando valores que passam de 10 mil dólares (R$ 51,4 mil) desde a saída de Cuba. A professora Marcia Maria de Oliveira, que desenvolve projetos de pesquisa sobre migrações na Universidade Federal de Roraima (UFRR) e tem ouvido os imigrantes cubanos, diz que as orientações corretas não estão chegando em Cuba. "Eu entendo que as informações que circulam em Cuba são muito reduzidas, mas eu não consigo entender como não repassam entre eles que não é necessário passar por esses grupos de contrabando e tráfico de pessoas ", explica. Segundo a PRF, na última semana começou a aumentar o número de imigrantes que estão entrando com o pedido de refúgio no posto de fronteira em Bonfim, sem se sujeitar ao caminho clandestino. É um sinal, segundo o agente Magalhães, que pode estar começando a chegar a informação em Cuba de que o "Brasil não é como EUA" e pode acolher o migrante na fronteira. O aumento da chegada de cubanos ao Brasil coincide com as medidas mais restritivas na fronteira dos EUA desde a volta do governo Donald Trump em 2025. Também reflete o fechamento de um "corredor migratório" na América Central para o cubanos. Em 2021, o governo da Nicarágua eliminou a exigência de visto para cubanos , permitindo que milhares voassem legalmente para Manágua. A partir dali, muitos cubanos que deixavam a ilha para trás seguiam por terra através de Honduras, Guatemala e México rumo à fronteira dos EUA. Mas, em 8 de fevereiro deste ano, após pressão americana, a Nicarágua encerrou a entrada sem visto para cidadãos cubanos. Um dos únicos países que não exigem o visto passou a ser justamente a Guiana. O recorde também acontece em meio à grave crise econômica e o colapso das usinas termelétricas que levam a apagões diários no país. O embargo econômico americano a Cuba, vigente há décadas, se intensificou como nunca havia se visto antes. Desde a captura de Nicolás Maduro, ex-presidente da Venezuela, pelos EUA, Cuba também perdeu seu maior fornecedor de petróleo, levando a uma crise generalizada de desabastecimento no país. Trump ameaçou impor tarifas de importação a qualquer país que envie petróleo para a ilha. Cuba ainda enfrenta graves desafios climáticos, com a ocorrência frequente de furacões, motivador que a professora Oliveira também tem ouvido em suas conversas com migrantes. "Então, além de você não ter condições para manter a luz noite e dia, você ainda tem a destruição de toda a infraestrutura", diz. Com uma rota cada vez mais difícil aos EUA e uma crise sem sinais de melhora, os olhos cubanos têm se voltado ao Brasil. Cubanos foram resgatados na madrugada andando em rodovia de Roraima PRF A saga de uma família cubana ao Brasil Evelio Vazques, 45 anos, ainda lembra da vontade que tinha de conhecer o Brasil quando ligava a televisão nos anos 1990 e via o cenário tropical do Pontal da Areia, vila fictícia onde as gêmeas Ruth e Raquel se desentediam em Mulheres de Areia. "A gente sonhava com o Brasil desde criança porque crescíamos vendo as novelas brasileiras e víamos as afinidades com país, como o jeito das pessoas, a empatia", diz o cubano. Psicólogo com doutorado e especializado em conflitos de casais, Evelio sobreviveu nos últimos anos trabalhando como guia turístico e motorista dos famosos carros antigos da ilha, como os icônicos Ford 1959 e Cadillac 1956. O sustento da sua família dependia sobretudo da gorjeta de turistas estrangeiros. "Com o salário de psicólogo, não dava para comprar nem 30 ovos no mês. E mesmo com o dinheiro você pode passar 20 dias sem encontrar por que simplesmente não há ovos", relata. A situação no país foi se deteriorando ainda mais após a pandemia de covid-19, que atingiu em cheio o turismo, uma das maiores fontes de receita de Cuba. Em 2018, o país chegou a registrar um recorde histórico de 4,7 milhões de visitantes, gerando uma receita de US$ 2,782 bilhões (cerca de R$ 14,3 bilhões) .Em 2025, foram apenas 1,8 milhões de visitantes, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas e Informações de Cuba (Onei, na sigla em espanhol). Após a captura de Maduro em janeiro e o bloqueio ordenado por Trump ao envio de petróleo, a já frágil economia da ilha ficou ainda mais exposta, aprofundando uma crise energética que afeta diretamente o cotidiano de milhões de pessoas. "Cuba hoje é um país que, mesmo se você receber remessas do exterior, não há o que comprar, a eletricidade dura duas horas, depois ficamos 30, 34 horas seguidas sem energia. É um colapso", diz Evelio. O cubano decidiu então organizar sua vinda ao Brasil com a esposa e seus três filhos, de 17, 6 e 4 anos, os dois mais novos, autistas. Vendeu tudo o que tinha, pediu dinheiro a parentes nos EUA e comprou as passagens para a Guiana. A ideia era trabalhar no país vizinho por alguns meses para juntar algum dinheiro e fazer o trajeto ao Brasil por conta própria num carro alugado. Mas ele acabou sendo aconselhado a abandonar a ideia, por supostos riscos de não conseguir cruzar a fronteira. "Nós cubanos somos programados para acreditar que o que está na lei não funciona. Então, fiquei com receio de que, por ser cubano, ficaria pelo caminho." A professora Marcia Maria de Oliveira revela que "você não encontra nenhum cubano que tenha vindo para cá sem ser por coiotes". "Eles relataram que é muito difícil sair do país sem ser por meio dessas redes clandestinas". A família de Evelio pegou uma van de Georgetown a Lethem, na Guiana, viagem que, segundo o psicólogo, custou 1.250 dólares (R$ 6,4 mil), cinco vezes mais do que o cobrado a outras nacionalidades. Na cidade fronteiriça, um "coiote" os esperava. "Em um determinado momento, eles nos mandaram descer e nos levaram para uma área de mata", relata Evelio, que diz não ter sentido medo. A família cruzou de barco o rio Tacutu, que separa Lethem e Bonfim, em Roraima, após pagar mais 180 dólares (R$ 925). "Do outro lado, uma pessoa nos disse: 'Parabéns, vocês já estão no Brasil' e voltamos a caminhar por um caminho improvisado". Segundo a PRF, os veículos apreendidos nas estradas entre Bonfim e Boa Vista normalmente levam mais que dobro da capacidade, uma superlotação enfrentada pela família de Evelio. Já em Boa Vista, a família formalizou o pedido de refúgio, instrumento que, para ser solicitado, requer que o migrante esteja sofrendo perseguição por raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opinião política, ou que seu país enfrente grave e generalizada violação de direitos humanos. Evelio, a esposa e os filhos chegaram a dormir em redes penduradas em árvores até conseguirem pagar uma casa comunitária oferecida a cubanos na mesma situação. Depois de fazer bicos como jardineiro e pedreiro, conseguiram em 10 dias alugar uma pequena casa em Boa Vista, onde vivem até hoje. O cubano agradece o tratamento recebido pelas instituições brasileiras, como a PF, mas diz que existe uma lacuna sobre a acolhida a migrantes cubanos. Ele lamenta que a Operação Acolhida, criada em 2018, para receber especificamente os venezuelanos na fronteira com Roraima, não foi adaptada para contemplar agora sua nacionalidade.. A BBC News Brasil perguntou à Operação Acolhida, mantida pelo Ministério da Defesa Social, e ao Ministério da Justiça se há previsão de o projeto se voltar aos migrantes cubanos, mas não obteve resposta sobre esse ponto. O Ministério da Justiça informou que "implementa a Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia, voltada à integração dessas populações nas áreas de saúde, assistência social, educação, direitos humanos e geração de emprego". Evelio e família seguem em Boa Vista desde então. Atualmente, ele trabalha como motorista de Uber. "Queria agradecer muito o Brasil pelo respeito como nos tratam. Nós estamos acostumados a que nos humilhem, nos subjuguem ou nos desrespeitem por causa da nossa condição", diz o cubano. "Mas o que queremos é uma integração social viável e rápida. Necessitamos ser úteis com nossas profissões, nossa força de trabalho, porque queremos ajudar o Brasil, país que está nos acolhendo." Em Boa Vista, Evelio se juntou com outros cubanos e fundou a "Asociación de Comunidades Cubanas en la República Federativa de Brasil", com intuito de organizar a comunidade e fornecer informações corretas àqueles que querem vir ao país. Evelio trabalhou por 9 meses na Guiana até conseguir se mudar para o Brasil BBC O Brasil apenas como passagem Segundo a pesquisadora Marcia Maria de Oliveira, menos da metade dos cubanos com quem ela conversa nos centros de acolhida de Boa Vista tem intenção de ficar no Brasil. A maioria, diz, pretende seguir viagem a outros países da América do Sul que falam espanhol, como Argentina e Uruguai, ou à América do Norte. Segundo dados da PF, em 2025, 21 mil cubanos entraram oficialmente pelas fronteiras do Brasil e 5,4 mil saíram pela fronteira de Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, com o Uruguai. Outros, diz a pesquisadora, têm a ideia de pedir refúgio no Brasil para, depois de três meses, solicitar reassentamento em países como Canadá — mecanismo pelo qual refugiados reconhecidos podem ser transferidos para um terceiro país que concorde em recebê-los e oferecer proteção permanente. "Muitas dessas agências de Cuba, quando elas vendem o pacote, elas já vendem para o Canadá", relata Oliveira. O Ministério da Justiça disse em nota que "atua para preservar a finalidade do instituto do refúgio, conforme previsto na legislação brasileira e nos instrumentos internacionais de proteção". A BBC News Brasil questionou as embaixadas de Cuba e da Guiana no Brasil sobre o atendimento a migrantes e atuação de grupos criminosos na fronteira, mas até a publicação desta reportagem não obteve resposta Evelio e esposa hoje moram em Boa Vista, Roraima BBC

FONTE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/06/22/coiotes-barcos-e-rotas-na-mata-por-u-10-mil-a-perigosa-saga-dos-cubanos-para-chegar-ao-brasil-em-numero-recorde.ghtml


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