Governo Trump planeja enviar funcionários ao Brasil para questionar integridade das urnas eletrônicas, diz jornal
25/07/2026
(Foto: Reprodução) Trump quer enviar funcionários ao Brasil para questionar urnas, diz jornal
O governo dos Estados Unidos organiza o envio de dois altos funcionários do Departamento de Estado a Brasília com a missão de colocar em dúvida a transparência e a integridade do sistema eleitoral brasileiro, segundo revelou o jornal "The Washington Post" nesta sexta-feira (24), com base no relato de autoridades americanas e brasileiras sob condição de anonimato.
A viagem estaria prevista para ocorrer poucas semanas antes das eleições presidenciais do país, agendadas para 4 de outubro.
De acordo com as informações apuradas pelo "The Washington Post", a delegação será composta por Riley M. Barnes, secretário-assistente, e Samuel Samson, subsecretário-assistente. Samson é conhecido por viajar por diversos países promovendo a pauta conservadora e cultivando laços com grupos da direita, o que, em ocasiões anteriores gerou atritos com diplomatas e políticos tradicionais.
Reação do diplomacia brasileira e suspeitas sobre a missão
Urnas eletrônicas em Campo Grande
TRE-MS
A movimentação gerou forte reação nos bastidores do diplomacia nacional. Segundo reportado pelo "The Washington Post", diplomatas seniores do Brasil disseram ter tomado conhecimento da manobra norte-americana e prometeram agir para impedir que os enviados intervenham no processo interno.
Uma das autoridades ouvidas pelo jornal classificou a iniciativa como um "estratagema completamente incompatível com a democracia brasileira" e assegurou que o governo atuará para "proteger o sistema de votação".
A suspeita das autoridades brasileiras é de que o objetivo dos enviados seja se reunir com críticos do sistema eleitoral e elaborar um relatório voltado a deslegitimar as urnas eletrônicas. Em nota enviada ao "The Washington Post", o Departamento de Estado dos EUA confirmou a viagem dos diplomatas para Brasília, mas não respondeu às perguntas sobre o propósito da missão ou sobre eventuais preocupações com a integridade eleitoral brasileira.
Escalada de tensões entre Washington e Brasília
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, batendo continência no início do jantar promido pela Casa Branca aos jornalistas correspondentes internacionais.
Mandel Ngan / AFP
O envio dos emissários representa um agravamento nas tensões diplomáticas entre os dois países. O jornal americano destaca que o clima de atrito envolve divergências sobre:
os limites da liberdade de expressão;
tarifas comerciais recentes impostas pelos EUA a produtos brasileiros;
e o processo criminal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar após ser condenado por tentativa de golpe de Estado.
Além disso, a iniciativa evidencia uma mudança no comportamento da diplomacia norte-americana. Um alto funcionário do próprio Departamento de Estado desabafou ao "The Washington Post" sobre essa transformação:
"Antigamente, mobilizávamos nosso poder em situações de risco para defender a democracia. Agora, enviamos nomeados políticos para desacreditar o sistema eleitoral de outro país", afirmou a fonte ao jornal.
A postura atual diverge do posicionamento adotado pelos EUA nas eleições brasileiras de 2022. Naquela época, o governo americano atuou para reforçar a estabilidade democrática e frear discursos golpistas, respaldando relatórios de inteligência que atestavam a total ausência de fraudes no sistema de votação do Brasil.
O contraste entre a segurança das urnas e a narrativa de fraude
Flávio Bolsonaro levanta suspeita sobre urnas eletrônicas com informações já desmentidas pelo TSE
Apesar das investidas políticas, a confiabilidade do sistema eletrônico do Brasil segue amplamente reconhecida, destaca o "The Washington Post".
Observadores internacionais confirmam seguidamente a eficiência das urnas. Benoni Belli, embaixador do Brasil na Organização dos Estados Americanos (OEA), ressaltou ao jornal que todas as missões de observação internacional no Brasil desde 2018 atestaram que o sistema é seguro, confiável e plenamente capaz de produzir resultados legítimos.
No mesmo sentido, o especialista em eleições Salvador Romero afirmou ao periódico que o modelo brasileiro é "sem dúvida um dos mais robustos da América Latina".
Ainda assim, a narrativa de dúvida sobre a votação eletrônica permanece como um pilar entre setores da oposição. Conforme registra o jornal americano, o pré-candidato Flávio Bolsonaro voltou a reproduzir alegações de que as urnas brasileiras seriam vulneráveis a fraudes — acusações formalmente desmentidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Por outro lado, o influenciador de extrema-direita Paulo Figueiredo confirmou ao "The Washington Post" que tem mantido reuniões na Casa Branca e que o sistema eleitoral brasileiro se tornou um tema de profundo interesse para a atual gestão norte-americana.
Ingerência política na América Latina
Segundo o jornal americano, a investida em relação ao Brasil faz parte de uma postura mais ampla do governo de Trump de apoiar ostensivamente candidatos alinhados às ideologias conservadoras na América Latina.
Como exemplos desse movimento regional, o jornal cita o respaldo e ajuda financeira ao presidente Javier Milei na Argentina, o apoio ao presidente conservador eleito em Honduras e a recente aliança com Abelardo de la Espriella na Colômbia.
No caso colombiano, contudo, o comportamento dos EUA foi oposto: quando o ex-presidente de esquerda Gustavo Petro questionou os resultados, o Departamento de Estado americano emitiu nota condenando expressamente qualquer tentativa de desacreditar ou lançar dúvidas sobre o processo eleitoral.